DEBATE – "A CASA CAIU?"
O evento começou com Alê Youssef explicando os motivos que levaram ao debate, bem como lendo uma carta do Senador Suplicy, explicando sua ausência. Após isso, chamou à mesa os debatedores: Soninha, Mino Carta (editor da Carta Capital), Claudineu de Melo (Professor de Direito da Universidade Mackenzie e Diretor da Escola de Governo) e Xico Sá (jornalista).
Antes de responder às perguntas da platéia, os integrantes da mesa, um a um, fizeram uma pequena preleção. Soninha foi a primeira a falar:
Soninha
Ela explicou o evento, fez uma metáfora futebolística, "cara ao presidente", ela disse, ilustrando a "importância de ouvir".
"Quando o meu time, que é o Palmeiras, se esforçou muito para fazer uma campanha em 2002, meu diretor de jornal na ESPN, no meio do trabalho, levantava a cabeça e gritava 'vergooooonha'".
Ela disse que isso "é um pouco como os petistas têm gritado por ai", dizendo que vê, no PT, "gente perplexa, arrasada, deprimida, furiosa, e às vezes orgulhosa de algumas coisas, alguns rumos, algumas indicações"
Soninha fala menciona a Prefeitura petista de Diadema e a de Suzano, falando sobre esse último "que demais esse prefeito!"
Prosseguiu, metaforicamente:
"Quando um time cai para a segunda divisão, é facil falar 'Que absurdo! Se o marcos pegasse aquela bola...' Mas não foi 'aquela bola' que determinou a ida à segunda divisão. Não é o caso de se entregar a cabeça de Delúbio ou Silvio Pereira... Não é tão simples... Dói muito"
Refutou as piadinhas e insinuações. Para quem diz que "o PT virou uma Metástase", ela responde, gritando, "CLARO QUE NÃO!"
E continuou: "Não é eliminando dois ou três indivíduos... Não se comete tantos erros assim apenas pela cabeça de dois elementos... é um processo que precisa ser revisto"
Sobre a idéia de "refundação do PT": "Não acredito em refundação... parece que é zerar e recomeçar.. há muita coisa pra se preservar, se manter... algumas coisas precisam ser mantidas..."
Sobre campanhas: "Muito difícil lidar com os aliados ou com aqueles que se apresentam como aliados,... a maneira como pretendem apoiar... não concordo... Isso é perceptivel numa campanha a vereador... imagine o grau que pode alcançar - referindo-se ao Plano Federal.
E continua: "Não tem como dissociar fins e meios completamente". Citando Dalai-Lama: "a paz não é o objetivo, a paz é o processo"
Mino Carta
Ele começou falando do nome do evento (A Casa Caiu?):
"Não sei como responder a pergunta relativa à queda da casa... não sei de qual casa estamos falando... me pergunto se não seria a própria Casa Brasil..."
E prosseguiu, falando sobre a crise atual:
"Em primeiro lugar, existe claramente a sanha dos conservadores, da minoria endinheirada, para realmente solapar de vez qualquer possibilidade de um governo de esquerda no pais.. governo que não é o do PT, porque esse do PT é de gravíssimas contradições (...) A sanha é muito bem conduzida pela mídia latina.... Mídia de qualidade péssima (...) basta confrontar qualquer um dos nossos grandes jornais... com qualquer jornal importante do mundo (...) vão despertar pena de quem realmente conheça língua estrangeira..."
"Essa mídia - compactamente - atira, na claríssima tentativa de sangrar Lula até o último momento e liquidar de vez com o PT (...) li extasiado (ele ironiza) a entrevista do doutor FHC, com notáveis poses de estadista... duas paginas do Estadão... estava magnífico... dizendo que o governo foi atingido no coração... nao há o que fazer..."
Alguém da platéia faz uma piada, e Mino prossegue ainda mais irônico
"Só mesmo ele voltando para pôr a casa em ordem..."
Todos riem bem alto. Ele continua, dessa vez sério, como que justificando a ironia inicial:
"FHC quebrou o pais três vezes, praticou o maior engodo eleitoral.... Depois de comprar votos para conseguir a Reeleição ... (Mino Carta diz "o propinão", batizando o episódio) A mudanca da constituição... Fez uma campanha prometendo a estabilidade e não mais tarde que DOZE DIAS empossado, desvalorizou o real"
Continua, falando sobre a bandeira do real forte: "para espanto de Roberto Marinho, que acreditava no que escrevia Miriam Leitão"
Então, Mino parte para o segundo ponto:
"O PT se acuou" sentencia. Prossegue dizendo que houve "incongruência do PT", pois foi "eleito por sessenta e dois por cento de eleitores".
Justifica dizendo que "nosso Lula tinha na mão um capital... patrimônio excepcional... primeira vez na minha vida, não somente de jornalista, mas também de cidadão, assisti a vitória de um candidato da oposição, diante dessa mídia compactamente contrária a qualquer mudança do status quo".
"Justificando algumas cautelas necessárias", ele diz: "o governo poderia ter conduzido as coisas de outra maneira".
Alega que houve "incoerencia petista", mas ressalta que há aspectos positivos, tocados com "discernimento... habilidade e coragem", como a política exterior, a educacional, que Mino considerou "avanços inegáveis"
Referindo-se à política econômica, e para provar que a mesma está à salvo, diz que "bastou (Palocci) dizer que a política econômica não muda em ocasião alguma..." que "haja o que houver... permanece como está" e então, ele diz, "a mídia nativa aplaudiu desvairadamente"
Falou sobre as instituições financeiras: "nesse momento, os bancos brasileiros ganham como jamais qualquer banqueiro ganhou no mundo... retorno de trinta e três por cento de seu capital em um ano... com esse juro, qualquer um que tenha dinheiro ganha"
Concluiu, sintetizando os dois pontos, buscando "chamar atenção para a unidade, a aliança compacta de todas as forcas conservadoras do Pais... e de outro lado um PT acuado e incoerente..."
Xico Sá
Começou fazendo uma metáfora do amor. Sobre a crise política, alegou ser a "imagem da traição", prosseguindo "a mulher te engana com amante rico, milionário, praticando a coisa mais conservadora... matar o romantismo... em busca da tradição mais escrota...".
Diz que isso aconteceu com o PT. Ele "foi se afastando das massas... dos grupos... dos movimentos sociais (...) quando quebra o romantismo, e quando a cúpula tem vergonha dos sem teto... ze rainha...."
E continua falando da elitização da cúpula da legenda: "criou-se um nojinho dentro do PT a segmentos que foram fundamentais a construção do partido"
"Se fizer um trabalho de fotografia, você tem noção clara de como foram mudando os trajes dos companheiros que estavam perto da cúpula" - a ilutração arrancou gargalhadas da platéia.
Xico Sá diz que se trata de uma "lição iconográfica bacana, que acabou dando no que vemos hoje". Diz que Zé Dirceu e Lula relegaram os movimentos sociais a "oitavíssimo plano".
Aponta como "flagrante delito dessa traição... o batom na cueca desse final de processo". Afirma que o PT "caiu no conto neoliberal do profissionalismo..."
Segundo Xico, alguns tesoureiros "são uma lavanderia permanente desde que se voltou a ter eleição... sao requisitados sempre". Lembra que "Marcos valerio trabalha para o PSDB mineiro" e teria "um servico requisitado... de acordo com as demandas..."
Uma vez que o "PT caiu no conto, teve que recorrer (aos tesoureiros)"
Ele então se lembra de quando foi recentemente a um show da banda Fellini, no maior clima de nostalgia, e sobre a profissionalização do PT alguém defendesse o partido, perguntando "se vendesse estrelinhas chegaria a Presidência"
Xico Sá diz que "sem romantismo nao se faz nada....", mas concorda que somente vendendo estrelinha o PT não chegaria à Presidência. Diz que a "democracia não deu frutos sociais... mas deu frutos de uma profissionalização ruim... avançou como nunca no 'know how' de roubalheira..."
E mais: "o PSDB atingiu um 'know how' de roubo sofisticado.. aproveitando o auge do mundo online... nao foi traduzido pelas macas...". Aproveita para elogiar a revista Carta Capital, na pessoa de seu Editor, dizendo que a revista é teimosa.
Sobre o partido de maior "know how" e de sua sofisticação, diz que "esse roubo não chegou à compreensão das massas".
Claudineu de Melo
Começa dizendo que "a vereadora chamou atenção para o compromisso de transformar o Brasil". Diz também que "o Brasil não subsiste nas condições de desigualdade absoluta em que vivem as pessoas (...) uma minoria mais concentrada a que detém os bens (...) a grande maioria dispersa, sem condições mínimas para a subsistência"
Fala que "o partido dos trabalhadores faz uma inflexão em dado momento... em 22/06/2002 torna pública a famosa carta aos brasileiros... na qual assume o compromisso inarredável de manter as regras do jogo", alegando que "isso contraria a razão de ser do próprio partido"
Prossegue: "Ao longo de vinte e quatro anos, então de vinte e dois anos, o partido é propugnado exatamente pela mudança da sociedade, das condições de vida, da mudança econômica."
Sobre política, faz a seguinte digressão: "toda política e sempre econômica (...) deve-se indagar se é dirigida às grandes questões sociais ou não".
E continua, sobre a crise: "O PT se afasta do projeto de governo quando assume a postura do partido que busca na verdade instalar um projeto de poder". Diz que esse é o "o primeiro grande erro" do partido.
Diz também que "na vida das pessoas, das sociedades, algumas regras são fundamentais, não podem ser traídas. Uma dessas regras é que a palavra de um político não pode ser modificada, não pode mudar de lado e ele não pode mudar de lado fundado no fato de que assinou um documento."
Sobre isso, conclui: "A política não se faz por escrito, mas sim com palavras, com compromissos... diferente da atividade privada, na qual as palavras não valem nada, os acordos são por escrito"
O professor prossegue:
"No momento em que o PT propõe por escrito uma nova política, abandona o que propugnou em palavras durante vinte e dois anos. Ali está o centro da crise. A verdadeira crise não está nessa mancha de corrupção que lhe atribuem, a verdadeira crise se instala lá atrás, antes da eleição do Presidente da República"
"Os partidos têm na sua origem uma função, uma finalidade. São criados com a finalidade especifica, a conquista do poder. Para isso que existem. Tem uma outra função que é tão importante quanto a conquista do poder... a função pedagógica de educar a sociedade."
"O Partido dos Trabalhadores envolveu uma expressiva venerabilidade a esse valor pedagógico, o PT ajuda em vinte e dois anos a transformar a sociedade brasileira. Temos que reconhecer esse partido, ele se colocou nas praças, nas ruas, buscando educar a sociedade brasileira, dando um rumo diverso desse mesmo que está aí... que ele mesmo trilha..."
"Quando torna publica a carta" O PT "se afasta dessa grande rota, deixa de ser instrumento de transformação e se coloca como um projeto de governo, quando na verdade é um projeto de poder"
"À partir da assunção do governo pelo Partido dos Trabalhadores (...) se assemelha em tudo e por tudo aos demais partidos... em especial ao partido que o antecede, que ocupou ao longo dos oito anos anteriores o Governo da República"
"Hoje, o Partido dos Trabalhadores vive um momento crucial, essa questão decisiva só será resolvida se efetivamente o partido retomar o rumo original de educação e transformação da sociedade brasileira"
"não vejo a possibilidade de subsistência como partido de esquerda, transformador, se não retomando sua origem..." e "o partido pra voltar às origens... primeira condição é se colocar em oposição a esse governo"
Claudineu se pergunta se é possível se colocar na oposição na condição atual, e responde em seguida, concluindo:
"Parece impensável que esse partido venha a se colocar numa efetiva oposição, enquanto encabeçado por pessoas que são escolhidas em Brasília, no Palácio do Planalto"

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